A etimologia dos doces

abeilledorbonbon

 

Quem gosta muito de cozinhar e de comer, muitas vezes, tambem possui interesse por tudo ligado a cultura gastronomia. Para esses nerds culinários como eu, segue um lindo texto (emprestado do excelente site www.origemdapalavra.com.br) que conta a etimologia de vários doces que conhecemos.

 

Lá pelos meus dez anos, entrei no gabinete do meu avô e lhe ofereci uma bala das que eu tinha no bolso. Ele aceitou e, enquanto a desembrulhava, eu perguntei:

– Vô, por que isto tem o mesmo nome daquilo que se usa nas armas de fogo? Essas coisas não têm nada a ver uma com a outra.

– Funcionalmente não, mas a origem é a mesma. A palavra vem do Francês balle, “conjunto de objetos enrolados, embrulhados, pacote”, mas também “objeto redondo, bola, projétil”, do Latim bulla, “objeto esférico, bola, bolha”. Pela semelhança de forma é que o doce recebeu o nome.

– Mas uma bala de fuzil não é todinha redonda!

– Antes era. Os primeiros projéteis de arma de fogo eram todos assim, desde os canhões aos fuzis, o que lhes reduzia a precisão. Depois se descobriu que um cano raiado por dentro e uma forma mais alongada melhoravam a sua eficácia e deu para os homens se matarem melhor uns aos outros.

– Puxa. Ei, falando nisso, e o puxa-puxa?

– Tá na cara que é uma reduplicação de uma forma do verbo puxar, né? E este vem do Latim pulsare, “empurrar, repelir, fazer vibrar uma corda”. Esse doce é uma forma esticável de melado.

Falando em melado, ocorre-me a rapadura, que vem de rapar, que vem do Germânico hrapon, “tirar de, arrebatar”, já que em certo momento da fabricação do doce se tem que rapar o tacho.

Enfim, todas essas coisas se enquadram na palavra guloseima, que deriva de…

– Gula!

– Espantosamente esperto, esse meu neto. E esse substantivo veio de…

– Aí já é querer demais, Vô! – ele riu:

– Verdade. Pois veio do Latim gulla, “garganta, goela, esôfago”. Um guloso sempre deseja passar coisas garganta abaixo.

– E o bombom, quem inventou?

– Quem, não sei; apenas digo que esse nome está em uso desde pelo menos 1604 e que é uma duplicação do Francês bon, “bom”, do Latim bonus, “bom”.

– Foi lá que inventaram a palavra chocolate também, aposto.

– Grande engano. Quem a inventou foram os Astecas. Em seu idioma, o Náhuatl, xocolatl é feito de xococ, “amargo”, mais atl, “água”.

– “Água amarga”? Mas além de ele não ser líquido, é doce!

– Originalmente ele era uma bebida amarga. Depois que veio para a Europa foi que lhe adicionaram açúcar e o condensaram em forma sólida. Assim, se você voltar ao tempo dos Astecas e eles lhe oferecerem xocolatl, melhor não aceitar porque não será do seu agrado.

E agora me lembrei do rebuçado. Conhece?

– Nunca ouvi falar, meu avô. Não é invenção sua?

– Não; designa um doce à base de calda de açúcar e que era vendido embrulhado em papel. Rebuçar significa “tapar, encobrir, disfarçar” e veio de rebuço, a parte da capa que podia servir para encobrir o rosto. É por isso que quando alguém diz que vai falar “sem rebuços” quer dizer que vai se comunicar sem esconder nada. O que provavelmente é mentira.

E, falando em doce à base de calda de açúcar, temos também o caramelo, cujo nome não se tem certeza de onde vem, mas se suspeita que seja do Latim calamellus, diminutivo de calamus, “cana”.

– E o que me diz o senhor do chiclete?

– Esse vem do Espanhol chicle, que designava uma resina usada para mascar; também é do Náhuatl e quer dizer, se não me engano, “grudento, pegajoso”. Quem já pisou numa coisa dessas na calçada sabe bem por quê.

– Então ele é uma coisa natural! Não dá para reclamar quando a gente anda por aí mascando.

– Era natural. Agora é totalmente feito a partir de derivados do petróleo. Não dá para ficar contente por esse lado. Mas não se preocupe, não faz grande mal usá-lo.

– Eu gosto daquelas coisinhas que parecem umas drágeas, como é que se chamam…

– Confeitos.

– Isso! O que é que eles têm que ver com o confete do Carnaval?

– Tudo. O nome dos docinhos vem do Italiano confetto, do Latim confectum, “feito, fabricado, preparado”, de com-, “junto”, mais facere, “fazer”. Usou-se primeiro para frutas secas recobertas de açúcar, depois para outros doces recobertos com ele.

– E o do Carnaval?

– Por incrível que pareça, o pessoal atirava esses docinhos uns nos outros nos carnavais de outrora, na Europa; depois se deram conta de que era desperdício demais e começaram a usar bolinhas de gesso colorido e afinal pequenos pedaços de papel redondo, o que saía bem mais em conta. Como se dizia em Italiano confetti, plural, em Português se fez a palavra confete, no singular.

E agora, depois de tanta doçura que chegou a me enjoar, seja útil e vá descolar para o seu avô um sanduíche de salame ali na cozinha.

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